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Afonso
Imhof
É corrente contínua nos meios de informação,
da imprensa, dos intelectuais, das autoridades e pessoas vinculadas ao
turismo e às questões ditas culturais, de que construções
arquitetônicas, que apresentam treliças ou cruzes-de-santo-andré
nas sacadas, pontes e fachadas ou ainda outros elementos externos decorativos
de madeira, constituem o badalado, mas incompreendido enxaimel e que,
muitos ainda chegam a incluí-lo, equivocadamente, na categoria
de estilo arquitetônico – é um gênero –
e ainda a considera-lo como exclusivamente germânico.
Até agora, nenhum pesquisador pôde atestar uma paternidade
cultural reconhecida da origem da técnica construtiva primitiva
ou secundária em enxaiméis, muito menos da sua hipotética
etnicidade ou exclusividade nacional ou de espaços restritos no
globo, à qual se possa atribuir sua origem única e sua posterior
difusão e adoção devidamente documentadas.
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Cruzes-de-santo-andré
e
tesourinha - Foto-
H. Maurenti

Cruzes-de-santo-andré
e
tesourinha - Foto-
H. Maurenti
Essa arquitetura sem arquitetos, foi uma das primeiras “globalizações”
culturais ocorridas; pode-se constatar a difusão dessa técnica
“primitiva” de construção em enxaiméis
há mais de mil anos atrás, praticamente, em quase todas
as populações que tinham em seu patrimônio cultural
o domínio e o conhecimento das propriedades do barro, da argila,
da areia e outros agregados reunidos à madeira (os enxaiméis),
que constituíam a necessária estrutura para a confecção
da taipa (parede). Esse empreendimento humano era coletivo, comum a todos,
solidário, não provocava poluição do ar, desequilíbrio
ambiental ou qualquer outra agressão à natureza.
Na Europa, durante e após a Idade Média, as casas dos camponeses
e dos colonos que formavam, principalmente, as aldeias, vilas, vilarejos
e os povoados, eram erguidas com o conhecimento da técnica construtiva
em enxaiméis, as paredes eram de barro (pau-a-pique) e a cobertura
era feita com materiais vegetais disponíveis nas áreas de
assentamento das diversas populações rurais assim como em
inúmeras outras regiões do globo. Os enxaiméis também
poderiam ser preenchidos com blocos macios de barro, argila ou os chamados
adobes (terracota secada ao sol) e pedras sobre pedras. Uma infinidade
étnica, ou de povos tradicionais, além de centenas de etnias
germânicas, utilizaram-se desse conhecimento construtivo, com as
respectivas adaptações e diversidades regionais.
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Residência existente ao lado do pórtico
de Joinville
Foto-
H. Maurenti
Enxaimel com tijolo à vista e Turma de História da UNIVILLE(2004)
Foto- H. Maurenti

Enxaimel com reboco - Foto-
H. Maurenti
Com a dinâmica cultural européia da Idade
Média, nas diversas cidades livres dos países pluri ou multi-culturais
europeus, surgiu a outra técnica construtiva em enxaiméis:
os tramados ou “esqueletos” passaram a ser de madeira maciça
e o preenchimento passou a se dar com tijolos, substituindo então,
os antigos quadradinhos ou feixes feito de varinhas ou varas trançadas
com cordas e o barro fixado através da socagem e de aderência
com palha e argila. O conteúdo foi alterado, mas a estrutura permanecia
à base de enxaiméis.
Além da denominação brasileira casa de enxaimel –
denominação incorreta -, existem as palavras germânicas
“Fachwerkbau” (significando construção
em prateleiras ou construção com tramados de madeira e os
vãos preenchidos com tijolos ou barro) e “Fachwerkhaus”
(significando casa feita com trabalhos na madeira) e a palavra francesa
colombage que também se referia aos enxaiméis
ou barrotes que, aprumados, resultavam em edificações até
de vários andares. Em suma: as madeiras eram os enxaiméis
que baratearam os custos das construções e os novos “não
muito pobres” – tanto rurículas como urbanos –
puderam usufruir assim desse novo gênero ou padrão construtivo.
Enxaimel é cada uma das estacas ou grossos caibros ou barrotes
que, com varas, formam os ripados ou engradados para preenchimento com
a taipa, uma técnica construtiva inicial dos colonizadores europeus
na América. As madeiras ficavam aparentes e essas madeiras é
que se chamam de enxaiméis da casa ou do prédio.

Detalhe
das enxaiméis- Foto-
H. Maurenti
Devido
à implantação de um fortalecimento das bases de sustentação
com sapatas de pedra e, também, à estruturação
mais sólida com tramos mais espessos e linhas em madeiras resistentes
ao tempo, possibilitou-se a construção de grandes casas
residenciais e comerciais, edifícios públicos, clubes recreativos,
templos, fábricas, armazéns, engenhos e escolas, tanto nas
cidades medievais européias, como em áreas camponesas. Nas
cidades, essa nova modalidade foi adotada em razão das ofertas
e demandas existentes para uma nova classe média em ascensão
e não por uma força espiritual subordinada a qualquer “ethos”
étnico ou fidelidade a qualquer cultura ou tradição.
Nesta construção, as paredes também são estruturadas
por um tramado de madeira aparelhada, - são os enxaiméis
– em que as peças horizontais, verticais e inclinadas são
encaixadas entre si, resultando espaços que foram preenchidos com
taipa, adobe, pedra ou tijolos; às vezes todos esses materiais
poderiam ser utilizados em uma mesma edificação. Para esse
tramado, em inglês, temos o termo compartiment shelf
(estrutura, armação, esqueleto), esse tipo de construção
era vendido sem a marca da germanidade e muito menos, alguém adquiriria
o material em consonância com uma identidade cultural germânica
manifesta ou dissimulada.
Na
atual globalização do mercado turístico – “cultural”,
as pessoas, grupos sociais locais, regionais ou nacionais, grupos referenciais
étnicos, comunidades tradicionais com identidades auto-imaginadas
ou por outros atribuídas ou induzidas a sê-las, tal qual
imagem e semelhança, especialmente adequadas ao manejo da dominação
social – através de tradições inventadas ou
re-impostas sutilmente -, a identidade cultural poderá ser racionalmente
seletiva e adotada, se puder ser compensatória através de
bonificações materiais-financeiras, isto é, de uma
exigência racional de reciprocidade relativa pelo empenho das pessoas
nas coisas do comércio cultural, dos seus supostos bens culturais,
quer sejam da esfera arquitetônica histórica, quer sejam
da esfera produtiva para- folclórica de espetacularizações
ingênuas de “suas” danças monótonas e
museificadas para turistas auto ou hetero-enganados.
A vida em uma cultura é processada inconscientemente, enquanto
que a identidade cultural se dá conscientemente. Assim entendo
que, quem está dentro de uma cultura age sob a força do
modo de vida concebido e vivido por todos, mas a identidade é sempre,
racional e emotivamente, composta e recomposta ou atualizada constantemente,
através de símbolos, significações e ressignificações,
mas que em sua comunhão, poderá haver relativismo cultural
e, portanto, discordâncias às escolhas identificadoras feitas
por alguns ladinos. Práticas identitárias poderão
se constituir em uma etnocentricidade ou até em uma racialização
cultural gerando ideologias das diferenças. Muitos críticos
e dissidentes almejam, nos dias atuais, a concretização,
da igualdade humana, da paz e dispostos a lutar pela formulação
de uma macro ética e uma tolerância como início para
uma nova e radical fraternidade.
Detalhe
das enxaiméis
Fotos- Priscila D. Trierweiler
O mercado (serrarias e olarias) da época foi, em grande parte,
o responsável pela oferta habitacional padronizada, semelhante
aos moldes comerciais dos dias atuais com as lojas de material de construção.
Na época o padrão determinava, em parte, os tamanhos das
casas familiares e também as formas externas.
Houve de verdade uma padronização genérica, no que
se refere à estruturação da montagem pré-moldada
desses “engradados”, tramados ou enxaiméis no Sul do
Brasil (RS e SC), mas devemos registrar a existência de inúmeras
variações, citações e resultantes construtivas
sobejamente encantadoras e fascinantes, ainda mais, quando essas casas
habitam contextos paisagísticos rurais, circundados por pastagens,
jardins, quintais, pomares e roças em comunhão com a paisagem
verde e com o visual dos tijolos e madeiramento à vista. Infelizmente
na área urbana, pode-se constatar em quase todas as casas o reboco
desses tijolos, perdendo com isso muito da graça visual.

Detalhe Técnica: Taipa -
Fotos-D. C. Rothert
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Entretanto, caso não forem praticadas políticas patrimoniais
históricas sérias e competentes, voltadas à preservação
desses bens culturais, ficaremos ainda mais empobrecidos, porquanto as
ricas inteligências das cidades de Santa Catarina já permitiram
perdas irreparáveis de grande parte de patrimônios históricos
desse gênero, e essas cidades estão a cada dia mais tristes,
com baixo índice de auto-estima. Muitos poréns e desdéns,
fizeram com que o patrimônio cultural material esteja desaparecendo
ligeiramente. Para uma exploração temática será
preciso um bom empenho conjunto dos municípios catarinenses na
busca de um plano mais ambicioso de preservação aliado à
educação patrimonial nas escolas e nas “comunidades”.
Tenta-se relacionar, fotograficamente, as casas em enxaiméis com
a própria história dos colonizadores, um esforço
que se torna inútil pela falta de memória ou mesmo de um
vazio na intertradicionalidade do passado com o presente dessas comunidades.
Identidades imaginadas por outros funcionam eficazmente? Quem revela a
dimensão da identificalidade dessas “comunidades”?
As “comunidades” não se identificam com esses bens
culturais, tal qual o mercado turístico gostaria que fosse. Qualquer
proprietário que obviamente também está se valendo
do mercado, se pergunta: preservar por que?

Paisagem
estilizada pelo artista Amandos Sell
Foto-
Priscila D. Trierweiler
O
passado é lição para se meditar,
Não para reproduzir.
Mário
de Andrade
“Paulicéia Desvairada”
“Porta”
“Mão-Francesa”Tipos Normandos
“Detalhes
de Paredes”Tipos Normandos

“Detalhes de Paredes”Tipos Normandos
Publicado originalmente em Blumenau em Cadernos, Tomo XLII, N1/12, 2001.
GÜNTER WEIMER no seu livro Arquitetura da Imigração
Alemã, El. Nobel, 1983 oferece um amplo e detalhado estudo dessa
questão e de outras tantas sobre as inúmeras formas externas
de construções em enxaiméis.
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